Itaurb: uma aniversariante que tenta respirar

Danilo Alvarenga

No aniversário de 35 anos as velas não são sopradas; em seu lugar, entra uma “caixa preta” que poderá ser aberta e render auditoria. “Mas aviso: não vamos parar de trabalhar nunca!” — adianta o diretor-presidente.

Dia primeiro de fevereiro de 2021, a Empresa de Desenvolvimento de Itabira (Itaurb) completou 35 anos de existência. Profícua depois empobrecida e até mesmo achincalhada por desprezos ao seu real valor, a aliada à Prefeitura de Itabira como empresa de economia mista, encontra-se no fundo do poço.

A nova administração municipal, que assumiu no início de janeiro, já tinha como meta, estabelecida em campanha eleitoral, o seu desejo de recuperá-la inteiramente, apesar de informações fatídicas de seu estado deprimente, à beira da falência.

Denúncias foram cotidianamente expressas sobre o desejo da administração anterior de privatizá-la. Muito foi adiantado neste sentido, como crescente terceirização de seus serviços e demissões de funcionários. Estes, aliás, recorreram à Justiça e obtiveram reintegração consumada.

Providências positivas já foram tomadas, a empresa não tem mais terceirizadas roendo grande parte de seu orçamento. Já é um passo fundamental. Para melhor esclarecer o momento atual, recorremos ao seu novo diretor-presidente, advogado Danilo Alvarenga Freitas, 36 anos, casado, dois filhos. Vamos por etapas. Ele quem fala à reportagem:

DÍVIDA EXORBITANTE

Em torno de 49 milhões com a União e 34 milhões de passivo trabalhista.

“Ainda não temos o valor apurado, apenas o estimado. O que há é  referente apenas a PIS, Cofins e FGTS, valores  que giram  em torno de R$ 49 milhões. Essas estimativas se referem a pendências a serem saldadas com a  União. Há, ainda, o que está em apuração. Para a Comissão de Transição não nos foi revelado senão esses valores oficiais que estão no site da Procuradoria. Outra divida é o passivo trabalhista proveniente de 533 processos, esses processos somam o montante de R$ 34.748 Milhões, processos esses ajuizados de 2018 a 2020”.

MÃO DE OBRA

670 funcionários. Funções: obras, limpeza urbana (varrição, coleta de lixo, capina e roçada) e vigilância. 

Estamos passando por uma adequação de rota. No dia 4 de janeiro, colocamos a empresa a serviço da zona rural (porque é um serviço que tem custo alto em função das estradas) e assumimos a rota  urbana. A Itaurb assumiu, de verdade, os serviços prestados na questão da coleta, principalmente, a partir do dia 12 de janeiro. Estamos passando por algumas adequações na coleta de lixo, mas os serviços de capina, roçada, estamos trabalhando bem. Hoje, estamos atacando o cemitério, fizemos a limpeza da área do  Batalhão da PM praticamente toda, estamos fazendo a limpeza da praça Acrísio também. A roçada e a capina estão em perfeito funcionamento”.

DEMITIDOS E REINTEGRADOS

Dos 160 demitidos, 48 foram reintegrados judicialmente.

“Foram demitidos, pela administração passada, 160 funcionários. Teve uma reintegração judicial. Em torno de 48 pessoas já foram reintegradas. Eles não estão exercendo as atividades de vigilância. Está em tramitação, dentro do contrato da Prefeitura com a Itaurb, já a reintegração de alguns rondas. Estamos fazendo o estudo da necessidade do município. É necessária a reintegração deles nos postos de trabalho, sabemos disso. Mas ainda está em estudo, em fase de análise econômica e financeira”.

EMPRESAS TERCEIRIZADAS

Fim da locação de equipamento, caminhão e fim da mão de obra terceirizada. Agora é tudo com a Itaurb.

“ As Construtora Hura, Lac e Make não mais prestam serviços para a Itaurb, ainda o município não aditou contratos de roçada, deixando esses serviços exclusivamente para a Itaurb. Todos os contratos já foram rescindidos. Um dos pilares nossos é colocar a Itaurb para exercer a atividade que ela sabe fazer. Não adianta terceirizar serviço. é dispendioso. Seria melhor o município contratar diretamente, já que estamos aqui para exercer o serviço de utilidade e limpeza urbana. A Hura prestou um serviço para o município até janeiro deste ano e esse serviço é atividade fim da Itaurb, que é a coleta de lixo. Nós assumimos nosso trabalho efetivo no dia 12. Em  função disto, estamos fazendo uma série de adequações, tratando melhor os nossos funcionários, respeitando-os, como merecem. Entendemos que havia um problema muito sério com o pessoal da coleta, mas, de antemão, a Itaurb não tem nenhuma empresa terceirizada mais. Não tem locação de equipamento, não tem locação de caminhão, não tem mão de obra terceirizada, nada”.

CONSTRUÇÃO  CIVIL

Em parceria com a secretaria de obras, Itaurb está disponível para atender com qualidade demandas operacionais de forma ágil e qualificada, como ocorreu recentemente a adequação do local para abrigar as vacinas.

“Sim, a construção civil é uma de nossas metas e atividades. Já estamos trabalhando, atendendo ao município na construção civil. No período inicial das chuvas, no Bairro Pedreira quem resolveu o problema foi a Itaurb, reforçando a Secretaria de Obras. Nossos profissionais atuaram naquele momento na construção de muro de arrimo, retirada de terra, calçamento de rua. Agora, atendendo o contexto da pandemia, fizemos a adequação do prédio para receber as câmaras frias, foram todos equipados por profissionais da Itaurb, que são de gabarito e não eram reconhecidos. Temos pessoas aqui que conseguem entender a complexidade da montagem de rede elétrica para quando acabar a energia da Cemig e fazerem funcionar o gerador. São profissionais que temos aqui dentro que são de qualidade, de gabarito, que estão atendendo perfeitamente às demandas do município.

COLETA SELETIVA

Retomada consciente de uma atividade imprescindível para a saúde do planeta.

“Nunca existiu uma proibição relativa à coleta seletiva. Pura invenção. Ela parou  porque quiseram parar.  Existia uma recomendação ministerial para adequação da usina de triagem, no sentido de proteção ao trabalhador, que é limpeza das mãos, utilização de máscaras ou proteção facial, utilização de luvas, distanciamento entre um e outro.  Fizemos essas adequações, pintamos o chão onde passa a correia com os resíduos a serem separados. Os trabalhadores não ficam de frente um para o outro. Eles se colocam intercalados. E são utilizados os EPIs. Além disso, fizemos toda análise da infraestrutura da usina, como sistema de combate a incêndio e pânico, demarcação de todo o sistema de incêndio, avaliamos todos os equipamentos, a prensa manual. De acordo com o nosso cronograma, estaremos retornando com a coleta seletiva neste início de fevereiro”.

ATERRO SANITÁRIO OU LIXÃO?

Graças a um trabalho eficiente da Itaurb, o aterro sanitário, de responsabilidade da secretaria de Desenvolvimento Urbano, receberá apenas o lixo orgânico da área urbana, já que na área rural, finalmente haverá um importante projeto de núcleos de compostagem.

“Agora vamos fazer a separação do lixo de verdade. O Aterro Sanitário não depende de nós, não fazemos sua manutenção. Está a cargo da Secretaria de Desenvolvimento Urbano. Mas sabemos que a destinação do lixo total para o aterro reduziu muito a vida útil do aterro e isso está sendo muito prejudicial. A partir de agora,  vamos fazer a segregação do lixo e vai ser encaminhado para o aterro apenas o lixo orgânico. E temos mais um diferencial que podemos falar que são as montagens dos núcleos de compostagens na zona rural. Na quarta-feira que vem (3 de fevereiro) vamos dar o start do embrião, provavelmente vai ser na Serra dos Alves e Senhora do Carmo. Será o seguinte: o lixo da zona rural não virá todo para o Aterro Sanitário de Itabira. Vamos criar os núcleos de compostagem para disponibilizar para a comunidade o adubo para poder fazer plantio. Isso vai reduzir o volume de materiais orgânicos destinados ao Aterro Sanitário”.

LIXO HOSPITALAR

Quase duas toneladas ao mês precisam de solução.

“A Itaurb não tem essa especialidade de fazer a incineração do lixo. A Itaurb coleta, junto com outra empresa. Está em fase de negociação e acordo também com empresa itabirana, no Distrito Industrial, para fazer essa incineração, porque o volume nosso chega a quase duas toneladas/mês”.

VERBA DA COVID-19

Se existiu é assunto da gestão passada.

“Não tenho conhecimento ainda de que a Itaurb recebeu verba federal. Só posso adiantar que  finalidade de verba de Covid-19 não deve ser para a Itaurb. Acredito que isso tenha sido alguma outra questão, porque na pandemia exigiu-se um volume maior de coleta de lixo, porque as residências estavam gerando mais lixo. Deve ser alguma coisa neste sentido, mas não tenho a certeza”.

AUDITORIA

Necessária para o conhecimento da origem do problema da Itaurb, onde começou, quando começou e porque começou. 

“O prefeito quer que a gente abra a ‘caixa preta’ fazendo uma analogia ao fato de a Itaurb, que já foi uma aeronave estabilizada em vôo de cruzeiro, agora vê seu nariz apontando para o chão em tempo de se espatifar por completo. Marco Antônio quer corrigir este avião em rota e retomar o sucesso da empresa. Ele não quer que a gente pare; quer que continuemos o trabalho, olhando para frente, mas não deixando o que ficou para trás de errado, sem solução. Precisamos saber a origem das dívidas que são altíssimas, o porquê delas. Não queremos saber apenas o quanto deve.  Queremos  saber o que deve e o motivo, senão nunca iremos corrigir os erros.”

RESGATE TOTAL

O programa “Queremos te escutar” abre diálogo a fim de diagnosticar o que pode haver de tão grave para a empresa ter hoje mais processos ativos do que funcionários.

“Este é o nosso principal objetivo: colocar a Itaurb no patamar em que ela sempre esteve. Sabemos que a Itaurb era referência nacional em coleta seletiva de lixo e que tivemos períodos sem coleta seletiva de lixo. Então é a esse patamar que retornar. Já ouvimos aproximadamente 420 funcionários. Estamos com o programa “Queremos te Escutar” funcionando internamente. Estamos indo nos núcleos, conversando com os funcionários, recebendo as reclamações e, de antemão, já colocando algumas realidades em atividade. Sabemos que os funcionários perderam valor na Itaurb. Numa empresa que tem mais processos ativos do que funcionários, alguma coisa errada existe”.

ANÚNCIO DE PRIVATIZAÇÃO

A resposta é não! Itaurb é de Itabira.

“Foi amplamente divulgada a intenção da administração anterior de privatizar a Itaurb. Aí começou o problema.  Percebemos logo a desmotivação dos funcionários, a falta de liderança na base da conversa, de entender o porquê eles estão com problemas, de fazer muitas vezes uma readequação do trabalho, isto custou caro. Isso é nítido no sentido de a gente perceber realmente que os funcionários estavam sendo, sim, desvalorizados, e também pelo volume de ações trabalhistas. Não estava havendo o cumprimento de obrigações legais e com isso gerou esse passivo, esses problemas trabalhistas que temos aí. Dentre eles, a demissão dos rondas. É o maior passivo trabalhista que existe aqui dentro hoje. Cada execução processual está custando em torno de R$ 50 mil (vai de R$ 30 mil a R$ 80 mil). Então você pega R$ 50 mil vezes 148 processos, é um valor considerável. Estamos trabalhando nos acordos judiciais, buscando reduzir essa dívida ao máximo”.

E SE A DÍVIDA NÃO FOR PAGA?

Marco Antônio e Danilo Alvarenga

Ou paga ou acaba. A gestão da Itaurb está trabalhando desde o dia  primeiro de janeiro para salvar a autarquia. 

“Sabemos que a Itaurb depende estritamente de estar saudável na questão contábil para ter certidões negativas e participar de novos contratos e até acrescentar aditivios os contratos existentes. Se a Itaurb não resolver este problema até 2022, não teremos CND e não conseguiremos prestar serviços para a Prefeitura na renovação dos contratos. Vamos entrar com uma demanda judicial, algumas teses. Umas nós estudamos, outras são sugestões do jurídico nosso, no sentido realmente de reduzir a dívida tributária que é o coração da empresa. Sem certidão negativa de débito, não tem como participar de licitações, não tem como pegar novos contratos, e ficam prejudicados os contratos também que seriam aditivados no futuro”.

FINALMENTE

Uma força tarefa com choque de gestão, planejamento, economia e resgate do orgulho à camisa Itaurb.

“A Itaurb tem  670 funcionários e uma empresa deste porte precisa ter um faturamento acima de R$ 5 milhões. No Brasil, qualquer empresa deste porte tem faturamento acima de R$ 5 milhões. A Itaurb está faturando em torno de R$ 2 milhões e 80. Existiu uma queda de receita muito significativa com a paralisação da triagem. Reduziu em R$ 600 mil por mês. Esse período paralisado representa em torno de R$ 6 milhões de renúncia de receita, vamos dizer assim. Poderiam ter feito uma adequação, um investimento pequeno perto do faturamento perdido. Então muitas vezes a gente precisa olhar e fazer o básico. Acho que a Itaurb não precisa de grandes feitos. Necessitamos valorizar o funcionário para que ele tenha amor à camisa, amor à empresa, volte a produzir e ter qualidade no ambiente de trabalho. Com isso a Itaurb vai melhorar o faturamento, terá um ambiente mais saudável, menos ações judiciais e vamos chegar lá na frente com uma empresa saudável e dívidas saldadas”.

One Comment

  1. AMAURANTÔNIO CLARET MACEDO Reply

    ESTÀO DE PARABÉNS ESSA, GESTÃO, SOU FUNCIONÁRIO, SE PRECISAR DE MIN, ESTAMOS JUNTOS. “GLÓRIA AO SENHOR AMÉM OK”

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